Postagem marcada com ‘Brasil’

Brasil e China fazem 1ª transação sem dólar

09.12.09

Filial da chinesa Gree, de ar-condicionado, pagou R$ 1,7 milhão por peças importadas. Papel do dólar como moeda de reserva global vem sendo cada vez mais questionado; ONU propôs, em setembro, criação de divisa mundial.

O Brasil e a China fizeram sua primeira transação comercial sem usar dólares, intercambiando reais e yuans. A operação foi feita pelo Bank of China em São Paulo para a fábrica de aparelhos de ar-condicionado Gree, instalada na Zona Franca de Manaus.

A filial brasileira da Gree depositou no final de outubro R$ 1,72 milhão no banco em São Paulo, valor que foi retirado apenas três dias depois na China já convertido em yuans. A remessa serviu para pagar peças importadas da China.

O diretor do Bank of China em São Paulo, Zhang Jianhua, disse à Folha que o uso das moedas dos países reduz a flutuação das taxas de câmbio. Ele aposta que outras empresas chinesas com atuação no Brasil vão preferir fazer suas remessas com a conversão direta de reais para yuans.

Até agora, nenhuma empresa brasileira fez transação desse tipo, mas certamente valerá a pena para as exportações.

Em 2009 a China se tornou o maior parceiro comercial do Brasil. As vendas brasileiras já são 40% maiores que as para os EUA, o segundo maior destino.

Quando visitou a China, em maio, o presidente Lula defendeu que Brasil e China fizessem seu comércio usando as duas moedas nacionais, sem a conversão ao dólar. À época, o Bank of China disse que tal intenção estava limitada pelo fato de o yuan não ser ainda plenamente conversível.

Mas a China pretende promover o yuan como moeda internacional, depois de assinar, nos últimos meses, 650 bilhões de yuans (US$ 95 bilhões) em acordos de swap com Argentina, Indonésia, Coreia do Sul, Hong Kong, Malásia e Belarus.

Brasil e Argentina concordaram em realizar trocas comerciais em moedas locais, abandonando o dólar, em setembro de 2008. A iniciativa visa reduzir os custos das transações pela eliminação das taxas cobradas na conversão, mas o comércio realizado com reais e pesos ainda é pequeno.

Esse movimento de negócio em moedas locais, deixando o dólar de lado, vem crescendo, com o papel da divisa americana cada vez mais questionado.

Com os EUA se endividando para combater a crise, o debate sobre a continuidade do dólar como moeda de reserva mundial vem crescendo e algumas medidas práticas já são notadas: por exemplo, o dólar tem hoje a menor participação nas reservas globais desde 1999, quando o euro foi criado.

A Unctad, órgão da ONU, defendeu, em setembro, a criação de uma moeda global para substituir o dólar e proteger os mercados emergentes.

Fonte: Folha de São Paulo

COPENHAGE – Fundo do clima pode excluir Brasil

09.12.09

Países ricos defendem que só nações mais pobres recebam recursos para combater o aquecimento do planeta.

Com a União Europeia à frente, governos de países industrializados se recusam a repassar recursos dos fundos de Adaptação e Mitigação aos grandes países emergentes, como o Brasil. A discussão ocorreu ontem, nos bastidores do primeiro dia da 15ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-15), em Copenhague.

O mecanismo, estimado pela União Europeia em 100 bilhões por ano no período 2013 a 2020, é o principal meio de financiamento de ações para prevenir e minimizar os efeitos do aquecimento global.

Negociadores europeus e sul-americanos ouvidos pelo Estado alertam que, sem o entendimento sobre o repasse de recursos dos fundos, as chances de acordo são reduzidas. Os debates sobre financiamento devem ser os mais complexos da COP-15. Não há consenso nem sobre a administração do fundo nem sobre seu montante total – e muito menos sobre a divisão dos valores, assunto que provoca divergência ainda maior entre os diplomatas europeus. Para eles, a crise econômica – marcada pelo mau desempenho de países industrializados e pela boa performance dos grandes emergentes como China, Índia e Brasil – alterou as condições de negociação entre Bali, em 2007, e Copenhague, em 2009.

A arquitetura do Protocolo de Kyoto previa fluxos significativos de recursos migrando para China, Índia e Brasil. Hoje, acreditamos que, quanto maiores as necessidades de recursos de um país, mais ele precisa receber, disse ao Estado o negociador da União Europeia, Artur Runge-Metzger, em referência às nações menos desenvolvidas, como as africanas.

O ex-ministro do Meio Ambiente da França e embaixador encarregado das negociações do clima, Brice Lalonde, confirma a posição. Na Europa, nos perguntamos se os emergentes devem receber recursos do Fundo de Adaptação ou se o mais plausível seria que apenas os países menos desenvolvidos, como os da África, tenham acesso, afirmou. O mundo mudou após a crise, e o papel dos emergentes não é mais o mesmo.

Ontem, Luiz Alberto Figueiredo, diretor do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty, um dos brasileiros responsáveis pelas negociações, reconheceu que nações industrializadas vêm fazendo manobras para privar os emergentes de recursos. Um dos problemas da COP-15 é a falta de um engajamento claro sobre o financiamento das ações dos países em desenvolvimento, afirmou, referindo-se também às nações emergentes. Se não houver financiamento adequado aos países em desenvolvimento será muito difícil sair de Copenhague com um acordo.

Segundo Figueiredo, os países aceitam mais a criação de um fundo de curto prazo, chamado Fast Start Fund, como o que estabelece US$ 10 bilhões ao ano até 2013. Porém, eles não querem se comprometer com recursos no longo prazo.

A posição europeia encontra respaldo também nos Estados Unidos. Ontem, Jonathan Pershing, o principal negociador americano, disse que o país está disposto a fazer a sua parte na contribuição dos US$ 10 bilhões. Mas fez questão de ressaltar que os recursos seriam para as nações mais vulneráveis e menos desenvolvidas – o que não inclui o Brasil.

Segundo avaliação de outro integrante da delegação brasileira, no Congresso americano atualmente é mais problemática a aprovação de recursos para emergentes do que a adoção de metas de cortes das emissões de gases-estufa. Um exemplo prático do impasse é o mecanismo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd). As negociações, diz o embaixador brasileiro Sergio Serra, estão avançadas. No entanto, se não for definido um pacote econômico, o mecanismo – que interessa diretamente ao Brasil – não terá como ser implementado.

ORIGEM DOS RECURSOS

O fundo é formado por 2% dos recursos do chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), instrumento criado pelo Protocolo de Kyoto para agregar dinheiro para que países menos industrializados promovam o desenvolvimento sustentável. Hoje, o fundo tem cerca de 266 milhões, mas até 2012 poderá receber de 100 milhões a 400 milhões por ano.

Fonte: O Estado de São Paulo

 
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